Família inteira pega doença de Lyme após infestação de carrapatos

Família inteira pega doença de Lyme após infestação de carrapatos

Após uma infestação de carrapatos na casa da mãe da arquiteta Luciana Crozetta, 42, em Orleans (SC), a família toda foi diagnosticada com a doença de Lyme, que ficou conhecida com o caso do cantor Justin Bieber. Em janeiro deste ano, Luciana chegou a tirar mais de 15 bichinhos grudados no corpo das trigêmeas Annie, Julie e Sophie, de dois anos. Nesse depoimento, a arquiteta conta como descobriu a doença e importância de ela ser difundida.

“Em maio de 2020, eu, minhas trigêmeas e meu marido, o Sérgio, fomos morar, temporariamente, na casa da minha mãe, Ivete, para ela nos ajudar com as crianças e para as meninas terem mais espaço para brincar.

Com o isolamento social, deixamos de ter contato com algumas pessoas que nos auxiliavam com as tarefas domésticas e nos cuidados com as meninas. Minha mãe mora em uma casa com terreno grande e quintal gramado a três quadras do meu apartamento.

Em junho, as trigêmeas apresentaram algumas lesões de pele, tipo umas bolinhas brancas, como se fossem umas verruguinhas, irritabilidade, coceira, inchaço das pálpebras. A Sophie foi a primeira a ter os sintomas, acompanhados de febre de 43ºC e delírio.

Com suspeitas que variaram de covid-19, infecção viral, alergia alimentar e de contato, as meninas passaram em teleconsuta com pediatra, nutricionista, homeopata e uma dermatologista de São Paulo. Elas fizeram vários exames e tomaram alguns remédios.

Na teleconsulta com a dermatologista, mostrei uma lesão na mão da Julie, era a lesão característica da doença de Lyme, mas que só vim a descobrir depois. A médica perguntou se eu tinha cachorro em casa, disse que sim, mas que ele ficava em outra área, afastada das crianças.

Coincidentemente, o cachorro estava doente, sem comer e vomitando. A médica pediu para eu continuar observando e enviar fotos das lesões das meninas.

Alguns dias depois, a dermatologista me ligou para dizer que suspeitava que a Julie estava com a doença de Lyme, que provavelmente ela tinha sido picada por um carrapato infectado por uma bactéria. Ela me disse que ligou para a vigilância epidemiológica perguntando se havia casos da doença na região onde eu moro e eles confirmaram que sim.

A médica solicitou que fosse feita a coleta de sangue da Julie pela vigilância para ser enviada para análise ao Laboratório de Reumatologia da USP, em São Paulo.

Eu nunca tinha ouvido falar da doença de Lyme, no início resisti em acreditar, mas isso foi mudando à medida que fui pesquisando sobre o assunto na internet e que foram acontecendo algumas coisas.

Minha faxineira contou que o cachorro dela tinha morrido porque tinha sido picado por um carrapato, a babá sonhou que a Julie pedia ajuda e o cachorro da família piorava a cada dia sem a gente saber o que ele tinha.

A dermatologista prescreveu antibióticos para a Julie mesmo sem o resultado do exame, mas já considerando a doença de Lyme por causa da lesão em formato de alvo, chamada eritema migratório.

O pessoal do Laboratório de Reumatologia da USP me indicou um especialista em Lyme. Na primeira teleconsulta, o médico viu a lesão na mão da Julie e deu o diagnóstico na hora. Ele disse que a infestação de carrapatos deveria ter sido grande e decidiu que iria investigar a toda a família, incluindo eu, meu marido e minha mãe.

Ele solicitou que todos nós fizéssemos o exame específico para Lyme. Nós fizemos tanto pelo SUS quanto pelo convênio, com exceção da Annie que resistiu em coletar o exame de sangue, e acabei não insistindo.

A essa altura, o cachorro da família já tinha morrido sem um diagnóstico fechado e nós ficamos sabendo que um dos vizinhos tinha encontrado carrapatos na casa dele.

Imaginava que só as meninas poderiam ter a doença, mas depois parando para pensar lembramos que quando surgiram as primeiras as lesões nelas, nós também tivemos alguns sintomas. Meu marido apresentou uma lesão de pele na perna, alterações de humor e palpitação.

Eu fiquei com muita fadiga, dores nos joelhos, nos tornozelos e enxaqueca. Minha mãe teve dores articulares e mal-estar em geral. Na época não fizemos qualquer associação, mas depois descobrimos que eram sintomas comuns da doença de Lyme.

Um dia depois da teleconsulta com o especialista, as meninas estavam brincando, só de fralda, no playground no quintal da minha mãe, quando eu vi o que parecia uma sujeirinha na Julie. Tentei tirar com o dedo e a unha, mas não saiu.

Bateu o pânico, peguei minha pinça e tirei 10 bichinhos compatíveis com larvas ou ninfas de carrapatos do corpo dela. Tirei 3 da Annie, e 2 da Sofie. Coloquei os bichinhos em um tubinho, tirei fotos e mandei para o médico.

Nos dias seguintes, não deixei as meninas na área externa, mas mesmo assim encontrei mais bichinhos no corpo delas. Foi desesperador, a gente não sabia de onde vinha, pegamos nossas coisas e voltamos para o nosso apartamento só com a roupa do corpo, minha mãe foi conosco.

Pouco tempo depois, recebemos os resultados dos exames, houve variação entre os resultados do público e do privado, mas de forma geral, eu, a Julie e meu marido demos positivo, a Annie não fez.

O da Sophie e da minha mãe deram negativo nos dois, mas o médico fechou o diagnóstico pela história clínica das duas, da Sophie pelas lesões e da minha mãe por causa dos sintomas e do teste terapêutico.

Começamos a tomar os antibióticos e estamos estáveis, mas o tratamento não é fácil, é bastante debilitante para o organismo e custoso.

Ao receber o diagnóstico, tive duas preocupações. A primeira é que poucas pessoas têm o conhecimento da doença. A segunda é o medo de sermos infectados novamente justamente por não saber exatamente como se deu a transmissão.

A suspeita é que provavelmente os carrapatos, na forma de larvas, picaram algumas capivaras na região onde eu moro, e que elas adquiriram a bactéria e podem ser um reservatório natural da doença de Lyme.

Possivelmente esses carrapatos se transformaram em ninfas e nos picaram, inclusive o cachorro, nos transmitindo a doença.

A picada em mim, no meu marido e na minha mãe provavelmente passou despercebida. Toda noite olho o corpo das meninas, não as deixo sair sem repelente e tenho receio de fazer alguma atividade com elas ao ar livre.

Apesar de todas as dificuldades, tenho muita gratidão pela forma como as coisas aconteceram, pelas pessoas que participaram de todo esse processo. Se nós tivéssemos demorado mais para descobrir, a doença poderia ter avançado para a sua forma crônica e tido um desfecho pior.

Meu desejo é que através da história da minha família, mais pessoas, a comunidade local e os médicos saibam que essa doença existe. E que a partir disso haja mais pesquisa, mais conhecimento e mais informações disponíveis sobre a doença de Lyme.

A doença de Lyme é transmitida por carrapatos e, em nosso país, o principal carrapato conhecido pela transmissão é o carrapato-estrela (Amblyomma cajennense) e causada por uma bactéria chamada Borrelia burgerdorferi. O carrapato pica o animal contaminado, que pode ser silvestre ou doméstico —no Brasil, já foram encontrados DNA da bactéria em gambás, roedores, bovinos, equinos e em cães— e depois pica o ser humano transmitindo a doença.

Os primeiros sintomas podem aparecer de 3 a 32 dias após a picada, e podem incluir fadiga, cefaleia, febre, sudorese, calafrios, dor muscular e uma lesão na pele característica em formato de alvo, chamada eritema migratório.

A doença de Lyme pode apresentar três estágios clínicos distintos e, podendo, inclusive, pular uma ou mais dessas fases, indo direto para a fase crônica.

Nas formas mais graves, a Borrelia atinge o sistema nervoso central e pode causar confusão mental, sonolência excessiva e meningite. Às vezes, a infecção inicial pode ter sintomas bem fracos ou ser assintomática.

O diagnóstico da doença é primariamente clínico, depende de o médico realizar um bom histórico do paciente e pensar que pode ser a doença de Lyme —menos de 30% dos indivíduos apresentam o eritema migratório.

O próximo passo é realizar exames de sangue, que procuram no doente anticorpos contra a bactéria do Lyme. Pode ocorrer um exame falso-negativo, que é quando o paciente tem a doença e realiza o exame de comprovação, mas o resultado vem negativo.

Na doença de Lyme, existe uma taxa de 40 a 50% de falso-negativos, pois trata-se de um exame que busca anticorpos contra a doença e não um exame que busca a bactéria causadora da doença em si. Esses falsos negativos podem ocorrer porque no momento do exame ou os anticorpos não apareceram ainda —eles demoram de 4 a 6 semanas para aparecer na fase inicial da infecção, ou porque o organismo está produzindo níveis baixos de anticorpos— o que não seria o bastante para haver detecção no exame.

O tratamento é realizado com esquema de antibióticos, que atinjam todas as formas da Borrelia. A doença tem cura e a probabilidade aumenta quanto mais precoce é realizado o diagnóstico. Em casos considerados crônicos, a cura se torna mais difícil.

 

Fonte: Pragas & Eventos

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