Qual o futuro para o controle de baratas? Por Lucy Figueiredo

Qual o futuro para o controle de baratas? Por Lucy Figueiredo

Com base no artigo publicado na revista científica LIVE SCIENCE, por pesquisadores da UNIVERSIDADE DE PURDUE, há relatos enfatizando que todas as estratégias tradicionais com inseticidas em forma de spray para o controle de baratas na área urbana foram mal sucedidas. Complementam apontando que a “velha chinelada”, de ação mecânica, poderá vir a ser a alternativa promissora e única em futuro próximo, pois estes insetos já estão nascendo resistentes aos venenos até então utilizados.

Vamos falar, então, sobre VERDADES E MITOS, e o futuro para o controle de baratas

Cutícula dos insetos

Os insetos nascem com uma proteção física, a carapaça.

Este “invólucro” é rígido e dificulta a permeabilidade dos inseticidas líquidos para o interior do seu organismo, por contato.

Contudo, existem partes não protegidas por esta dura carapaça de quitina. São as ‘partes moles’, mais ventrais e entre as articulações.

Assim, se usarmos por exemplo, produtos de ação KD (knock down) com ação de choque e tombamento rápido, as baratas nocauteadas ficarão imobilizadas e por mais tempo sobre a superfície pulverizada. Este maior tempo de contato por imobilidade, resultará numa chance maior de penetração do produto através das partes não enrijecidas.

Vale lembrar que produtos de ação fulminante ou KD, podem ou não estar associados com outros de ação residual, para este fim, otimizando resultados de eficácia final.

Vias de penetração do Produtos para o Controle de Baratas

As vias de intoxicação dos insetos são três:

Pela derme – contato

Pela ingestão – digestiva

Pela absorção de gases atmosféricos – respiratória

Os inseticidas líquidos (spray) penetram , principalmente, por contato. Podem penetrar, secundariamente, por via respiratória, se forem voláteis e produzir gases que serão inspirados pelos insetos. Podem, ocasionalmente, ser ingeridos, caso o inseto “raspe” a superfície pulverizada e os ingira.

Portanto, a vida útil e eficácia do produto em spray estão mais ameaçadas pela presença da cutícula e mecanismos de resistência a serem abordados adiante. Mas, a busca de produtos voláteis para uso em situações elegíveis, pode ser interessante e sugere uma reflexão.

Por outro lado, até o presente momento, não há registro de resistência a produtos de ação digestiva.

Boa oportunidade para o investimento em iscas cada vez mais atrativas e palatáveis. Considero um futuro bastante promissor.

Reforçando, MITO OU VERDADE? O controle de baratas estaria mesmo tão drasticamente ameaçado?

Sobre RESISTÊNCIA

Assunto difícil, complexo e realmente ameaçador. Se lembrarmos que existem mutações aleatórias, ou ainda não definidas cientificamente, temos que nos curvar ao imponderável. Apenas devemos lembrar que seu percentual é baixo perante outros mecanismos conhecidos. Mutações aleatórias não ocorrem a todo momento. São um desvio no panorama geral.

Passemos aos mecanismos já estudados sobre resistência, daqui por diante.

Resistência a sítios-alvo

São mecanismos pontuais que alteram, de alguma forma, a estrutura molecular dos inseticidas, reduzindo ou anulando seu potencial tóxico.

Pesquisas na área de bioquímica são desejáveis e estão em alta, devendo ser incentivadas, de modo a definir mecanismos de bloqueio a este poder de detoxificação pelos insetos.

Resistência genética

A “mãe” das resistências. Aquela que representa a forma mais tradicional, sendo explicada pela mortalidade dos indivíduos suscetíveis e pela sobrevivência dos NATURALMENTE resistentes, que representam , a princípio, pequena parcela da população original. Ao longo do tempo, com a pressão inseticida, o quadro vai sendo alterado. Os sobreviventes resistentes vão se cruzando entre si sequencialmente, gerando cada vez mais populações com um número maior de indivíduos resistentes, e assim por diante…

Nesta situação, temos como agravante o fato das baratas terem gerações curtas. As Blattella germanica, baratas de cozinha, principal grupo resistente, têm um ciclo de ovo a adulto muito rápido, cerca de 3 meses . Isto permite uma evolução rápida da resistência em gerações subsequentes. Como são o grupo de pragas sinantrópicas de maior repulsa , a pressão inseticida passa a ser alta, até mesmo por leigos, que agem erroneamente.

Há como driblar? Sempre há.

Reduzir a pressão inseticida através de estratégias como o MANEJO INTEGRADO DE PRAGAS, do qual falaremos adiante.

Resistência cruzada e múltipla

O que vem a ser? Um mecanismo de resistência a produtos aos quais as baratas e outros organismos nunca foram submetidos anteriormente. Essa resistência ocorre por similaridade ou proximidade de estruturas químicas de moléculas e o reconhecimento “enganoso” das mesmas pelos animais.

Resistência comportamental

E o que falar deste tipo de resistência, sem nenhuma base genética? Mas tão importante nas ações de controle, pois o inseto “rejeita” o produto químico, configurando um comportamento de afastamento ou repelência, evitando sequer a possibilidade de contato!! Sem contato, sem intoxicação, sem sucesso de mortalidade, óbvio…

Este tipo de resistência não é de caráter fisiológico e depende de um “aprendizado” ou uma forma de imprinting, ao longo de um determinado tempo. Pode-se associar a uma “xenofobia”.

Recentemente, ocorreu um comportamento de não ingestão de isca gel por baratas. Foi confundido com resistência, a princípio, mas foi rejeição apenas. Estudado o fato, houve substituição de um açúcar ao qual as baratas estavam “saturadas”. Tal qual o Homem, os animais podem enjoar-se de qualquer alimento ao qual esteja submetido com frequência.

Resolvida a troca de substância, o controle retornou ao bom nível de resultados.

Tem que monitorar para entender. Controlar é avaliar, acima de tudo. Soluções existem e os fabricantes de produtos estão à frente em busca de soluções.

Os controladores de pragas devem estar sempre atentos para dar as dicas do que ocorre no campo.

Esta parceria e feedback valem muito.

REFLEXÃO

Pesquisas na área bioquímica e estudos sobre evolução molecular são fundamentais, de modo a resolver as questões de resistência e mecanismos envolvidos. Há necessidade de maior conhecimento das rotas metabólicas e de silenciamento gênico.

O estudo de substâncias energizantes é igualmente importante, visando formas práticas de potencialização de inseticidas.

A busca de inseticidas com mecanismos de ação diversificada e seletiva, como hormônios reguladores de crescimento também deve ser pensada, como ambientalmente elegíveis.

Não pretendemos aqui, ser determinantes. Apenas esperançosos.

Filosofia MIP

O Manejo Integrado de Pragas (MIP) é um caminho indubitavelmente promissor. Ouso chamá-lo de Manejo Inteligente de Pragas, como venho defendendo há certo tempo.

Não há como acreditar, como no passado, que o controle baseia-se apenas no controle químico.

As questões de segurança ambiental, humana e de animais domésticos, por meio dos órgãos de fiscalização como Anvisa, no topo, aboliram os praguicidas de efeito residual prolongado, a exemplo do DDT, substituindo-os pelos de “vida curta”, com curta duração no ambiente tratado.

Passa-se à necessidade de olhar o controle de pragas com definição de suas causas. E estas são não mais do que o ambiente: aquele que atrai, aquele que abriga, aquele que permite a reprodução, aquele que incentiva o crescimento populacional, traduzido em INFESTAÇÃO.

Resumidamente, passos do MIP

Bloqueio de acesso (não deixar entrar ou minimizar o acesso)

Armadilhamento (capturar aquele que conseguir entrar)

Limpeza “fina” do ambiente (pragas gostam de restos, mas não somente)

Saneamento ambiental (pragas estão associadas a sujidades)

Reparos estruturais de fendas e vãos (pragas se abrigam nestes locais)

Inspeções detalhadas e contínuas (vigiar pra acionar o controle a tempo e a hora )

Monitoramento (avaliar e redimensionar sempre a tempo e a hora)

Lembrar que MIP é filosofia e não metodologia. Não se limita a ações isoladas. “Tapar buracos” não significa MIP, assim como escovar dentes não significa educação. É muito mais do que isso. É um programa de ações conjuntas.

Concluindo

A guerra contra baratas existe, sim. Somente pesquisas e atitudes com responsabilidade compartilhada vencerão as dificuldades e questões de resistência.

Como dizia Darwin, a seleção natural não perdoa. Sobrevivem os mais aptos, como as baratas sinantrópicas. Mas o gerenciamento do controle, junto a pesquisas na área, ganharão a batalha.

Não podemos – nem devemos – confiar na chinela.

 

Fonte: Pragas & Eventos

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